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Entrevista com Moacyr Teixeira Neto

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Com mais de 20 anos de carreira, Moacyr Teixiera Neto tem se apresentado em várias cidades brasileiras, a destacar em alguns festivais importantes, como o Festival Internacional de Inverno de Domingos Martins. É professor da Faculdade de Música do Espírito Santos, e alguns de seus alunos já despontando em concursos de violão pelo Brasil. Para ele foram dedicadas obras por importantes compositores como Carlos Cruz, Jaceguay Lins, Maurício de Oliveira, Carlos Secomandi e Ricardo Tacuchian. Moacyr acaba de lançar seu quinto CD, “Violões das Américas”, e  o entrevistamos para divulgar esse recente trabalho.

Alvaro Henrique: Gostaria de começar com você comentando um pouco da sua história com o violão. Como você conheceu e começou a se dedicar a tocar esse instrumento?

Moacyr Teixeira Neto: Bom, isso já faz um tempo, mas vamos lá. Comecei a estudar na cidade de Guarapari, ao sul de Vitória. Depois fui aluno da Escola de Música do Espírito Santo (nome antigo da FAMES), já em Vitória, aonde estudei no curso básico.

AH: À época a Escola de Música do Espírito Santo ainda não oferecia curso superior, então.

MTN: Sim, exatamente, então percebi que precisava de algo mais. Meu primeiro contato nesse sentido foi com Leo Soares (UFRJ) que dava cursos exporadicamente em Vitória e a partir daí se sucederam vários cursos com diferentes professores como o Henrique Pinto, Marcos Vinícius (que na época ainda morava em BH) e algumas masterclasses.

AH: Quando você prosseguiu seus estudos no mestrado?

MTN: Num desses cursos que fiz conheci em uma pequena cidade do interior do ES o Nicolas Barros, e esse encontro mudou minha vida. Em 1992 ingressei na graduação da FAMES como o primeiro aluno em Violão e em 1994 fui aprovado no mestrado da UFRJ. Isso mesmo, eu ainda não tinha terminado a graduação, mas como era formado em Arquitetura, fui aceito. No mestrado fazia aula com o Turíbio Santos.

AH: Foi complicado conciliar o curso de arquitetura com o violão?

MTN: Eu já estava no final do curso de Arquitetura e não foi complicado não. Difícil foi ter que me mudar para o RJ em 1994 para fazer o mestrado. Nessa época eu também estudava com o Nicolas Barros através de um convênio que a FAMES tinha com a UNI-RIO, afinal eu ainda era aluno de Graduação também.

AH: E tem algo desse período em que você se dedicou à arquitetura que te engrandeceu como músico e professor universitário?

MTN: Cheguei a ter escritório de Arquitetura por algum tempo e também dei aulas de História da Arte na FAMES e na UFES. Sem dúvida esse contato com disciplinas correlatas da música me fizeram muito bem.

AH: Voltando ao seu mestrado no Rio, foi a partir dessa dissertação que saiu o livro Musica Contemporânea Brasileira para Violão”?

MTN: Sim, o livro é a própria dissertação, sem os apêndices. Foi uma idéia que tive, pois no fim da década de 90 o repertório contemporâneo brasileiro ainda era muito desconhecido, então acho que o livro trouxe à tona alguns compositores ainda novos naquela época.

AH: Nessa época do livro já havia iniciado sua colaboração com alguns compositores vivos?

MTN: Sim. um grande exemplo que dou é do inesquecível Fred Schneiter. Quando ainda estava pesquisando lembro-me de uma tarde em que passamos juntos no Catete, e ele, com toda boa vontade me passou detalhes de suas obras. Outro grande exemplo é o Carlos Cruz, que descobri nessa época e mais tarde toquei e gravei várias obras dele.

AH: Você lançou na semana passada seu quinto CD, um número invejável. Você poderia falar um pouco dos seus CDs?

MTN: Os três primeiros "Imagens Brasileiras" (em duo com o violonista Fabiano Mayer), "Embolada" (duo com o trompetista Antônio Marcos Cardoso) e Documentos da Música Capixaba, refletem o violão brasileiro e capixaba. "Gravuras do Violão" é um CD sobre a história do violão e o "Violão das Américas" é dedicado ao violão nas três américas.

AH: Queria saber um pouco da proposta artística desse último CD, o "Violão das Américas". Que violão de quais américas você nos mostra nesse novo trabalho?

MTN: O CD tenta refletir o Violão nas três Américas. Não é um CD simplesmete latino, nem caribenho, nem sul americano, mas mostra as facetas que o violão tem assumido nesses continentes. Procuro mostrar de tudo um pouco, desde obras bem tradicionais de povos andinos até um repertório mais sofisticado.

AH: Poderia falar do repertório do CD?

MTN: Vou começas pelos brasileiros. Tem um compositor capixaba que descobri recentemente, o Marcos Zanandréa, um Prelúdio que o Ricardo Tacuchian dedicou a mim, 2 obras do Marcos Vinícius que foram estreadas em Brasília no concerto da BRAVIO e os
"6 Estudos Oblíquos" do Fred Schneiter que também foram editados aqui em Vitória e estão sendo lançados juntos com o CD.

Gravei duas obras do folclore cubano arranjadas pelo Brouwer, uma Milonga argentina (arr. do Marcos Vinícius) e uma peça bem encaixada no estilo norte-americano do Andrew York intulada "Faire". Ah, já tava me esquecendo da "Nevando Está" que é um arranjo do Eduardo Falú para uma canção típica boliviana escrita pelo Adrian Patiño.

AH: Você contou com algum patrocínio ou ajuda governamental para lançar seus discos? Se sim, poderia citar essas entidades?

MTN: Neste CD, ao contrário dos outros, não contei com nenhum apoio público. Quis fazer o projeto sem esperar algo concreto. Tive sim apoio de algumas empresas privadas que já me apoiam a algum tempo, como a Acordes Centro de Música e Artes, que vc conhece aqui de Vitória. O pior é que quando o CD já estava ficando pronto saiu um apoio de uma prefeitura local que terá que ficar para um próximo projeto.

AH: Ou seja, já podemos esperar um sexto CD em breve?

MTN: Sim. Este CD será um apanhado de obras dedicadas a mim. Já tenho um material e espero ampliá-lo mais em breve, já ficando aí o convite para compositores interessados no projeto.

AH: Vitória é uma cidade em que há poucos anos ninguém citaria como um centro de atividade violonística, e recentemente tem apresentado um cenário local forte, e está gerando uma geração muito talentosa de violonistas jovens. A quê você atribui esse progresso?

MTN: Temos uma referência aqui em Vitória que é o violonista Maurício de Oliveira, que infelizmente não está bem de saúde. Essa referência, junto com um trabalho que foi implantado na FAMES há alguns anos deu ótimos resultados que acredito estarmos colhendo agora. Espero que possamos continuar essa trajetória e conto com essa geração para seguí-la.

AH: Certamente o seu trabalho e do seu colega da FAMES, Fabiano Mayer, contribuiu bastante.

MTN: Sim. Eu e o Fabiano já batalhamos um bocado. Já organizamos quatro Seminários Capixaba de Violão que deram muito certo, e outros tantos eventos como oficinas, trouxemos luthiers para cá, gravamos CD, lançamos livros, edições de obras, cursos de extensão e muito mais. Todavia precisamos de ajuda, pois o tempo passa e o gás nunca é o mesmo.


AH: Voltando a alguns assuntos que a gente comentou antes, além dos CDs e do seu trabalho como professor na FAMES, você tem se destacado recentemente por ter incentivado vários compositores a escreverem para o instrumento. Gostaria de saber como surgem essas parcerias, se você procura o compositor, se você é procurado, que nível de interferência no trabalho final você tem...

MTN: Todas as alternativas citadas. Uns eu procuro e incentivo a que escrevam, outros me procuram, como esse último que lhe falei aqui do ES. Procuro não interferir na estrutura de pensamento de quem escreve, mas não deixo de dar alguns palpites, principalmente sobre digitações e estruturas que funcionem melhor no violão.

AH: Outro trabalho recente que repercurtiu muito positivamente foi a apresentação do concerto "From Yesterday to Penny Lanne", de Leo Brouwer com temas dos Beatles. Você poderia dar uma impressão melhor do impacto no público capixaba desses concertos?

MTN: Foi sensacional e acredito que em qualquer lugar do mundo será. Beatles é uma unaminidade e a obra do Brouwer é muito delicada, fiel ao quarteto britânico, mas sempre com aquele toque que o Leo coloca em seus trabalhos.

AH: Moacyr, tem algum assunto que você gostaria que fosse abordado que não comentei?

MTN: Sim. Tenho vários projetos em andamento, mas um é especial. Trata-se de um novo Festival e Concurso que acontecerá na cidade de Vila Velha em abril de 2010, com apoio da Prefeitura local e organizado pela Acordes Centro de Música e Artes. Não posso adiantar muitos detalhes, mas será um marco na história do violão do ES e mais um grande evento do violão no Brasil.

AH: Ficamos no aguardo e na torcida positiva. Que recado você deixa para os visitantes do www.violaomandriao.mus.br?

MTN: Prestigiem o site e principalmente os evento violonísticos. Uma sábia frase do Marcos Vinícius, que para mim é um mago com as palavras, é a seguinte: "Não importa o que você faça, mas faça sempre algo pelo violão..."

AH: Muito obrigado pela entrevista!

EQUIPAMENTO

Violões: Sergio Abreu (1995). Tenho também um Rogério dos Santos (1998). 
Cordas: Augustine Regals (primas) e Daddario EJ46 (baixos) 
Banquinho ou apoio: Banquinho. 
Outro acessório usado para tocar: uma borrachinha sobre a coxa direita. 

Unhas 
Formato e tamanho: Inclinadas e arredondadas. 
Cuidados: polimento basicamente.

 

OPINIÃO

Por quê ser violonista? Um sonho antigo. 
Uma realização profissional: Meus 5 CDs, meu livro e 2 concertos que farei esse ano na Itália e Uruguai. 
Um marco no violão brasileiro: Villa-Lobos. 
Quais violonistas vivos você gosta de ouvir? John Williams, Goran Solcher. No Brasil Paulo Pedrassoli e recentemente vi o Daniel Wolff numa noite inspirada que foi demais. 
Melhor escola para dominar o violão: A da disciplina no estudo. 
Um conselho a um jovem profissional: Persiga seu sonho e procure estar sempre perto do violão em todos os sentidos. 
Como seria o violão dos seus sonhos? Os meus. Às vezes tenho pesadelos com eles também. 
O quê um compositor deveria escrever para engrandecer o repertório do violão? Obras que se aproximem mais do grande público. Mas com qualidade... 
Um recado para o público:  
O que você gostaria de dizer para um patrocinador e um produtor mas nunca pôde? Meu negócio é o violão e ponto final. 

PAPO DE MANICURE

Você lixaria e poliria as unhas de quem? Do Mario Ulloa (não sei como ele consegue tocar tão bem com uma unha daquele tamanho) 
Qual a maior vantagem de ser violonista? Adoro teatros e hotéis. 
Qual a maior desvantagem de ser violonista? Aviões... 
O quê esperar do décimo CD de Moacyr Teixeira Neto? Bom até o décimo ainda não pensei, mas até o oitavo já esta na prancheta (não a de Arquitetura que já vendi...)

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Última atualização em Sex, 28 de Agosto de 2009 08:53  

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