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Entrevista com o luthier Sérgio Barbosa

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Sérgio Barbosa é um luthier paulista, de Guarulhos, cuja paixão pelo violão começou como intérprete e se transformou no desejo de fazer violões. Um talentoso construtor que têm surgido nos últimos anos, têm instrumentos tocados por violonistas de diversos estados do país. Seu trabalho é voltado à linha Hauseriana e, na minha opinão, está entre os melhores violões tradicionais feitos no Brasil. Sérgio se mudou recentemente para Ouro Preto, está iniciando uma nova etapa na sua produção e, nesse momento de transição, nos deu uma entrevista.

 

AH: Como começou seu interesse na luteria?

SB: Desde criança gostava de fuçar nas ferramentas de marcenaria dos meus dois avôs. Até construía uns violõezinhos quadrados e tal, mas o negócio começou a rolar mesmo com 19 anos. Eu estava estudando há dois anos com um professor bastante sério que me dizia que eu precisava urgentemente de um bom violão. Juntei um dinheiro e fui atrás de informação. Consegui uns livros de lutheria bem ilustrativos, desmontei alguns violões - na verdade os destruí -, conheci um grande fornecedor de madeiras de SP e meti as caras. Fiz um violão precariamente em três semanas. Fiquei tão contente que pirei, aposentei os violões de fábrica que tinha e sempre que sobrava um dinheirinho, investia em material pra construir um violão novo.

No começo foi basicamente por não estar feliz com os violões de fábrica.

AH: E qual foi a sua principal fonte de informação nesse começo?

SB: Acho que foi a intuição mesmo. E como sempre estive em contato com pessoas relacionadas ao violão, isso me ajudou a apurar as idéias. Sempre tinha algum conselho de algum colega e tal, e aí comecei a procurar mais informações, tive mais acesso a violões de luthieres, e tudo isso foi me ajudando a desenvolver um gosto.

Talvez a principal fonte mesmo tenha sido o contato com violões dos principais luthieres nacionais, de colegas e tal.

Bom, teve mais coisa, livros, estudar as propriedades das madeiras, e um ponto crucial pra mim foi quando concluí meu violão de numero 34, mas isso depois de uns seis anos construindo. Ali percebi que tinha chegado em um lugar interessante, então pensei "tenho que ficar com esse violão pra saber como a coisa vai se desenvolver. Nesse momento me senti seguro pra seguir profissionalmente.

No fim das contas este violão está comigo há quase quatro anos, e ainda com ele aprendo muito sobre lutheria.

Enfim, acho que em dado momento o luthier tem que casar com um instrumento pra ter uma referência forte do próprio trabalho e pra saber o que esperar dele.


AH: Como vários luthiers, você começou sua estória como violonista e se aproximou da luteria. Conte um pouco do seu lado violonista.

SB: Sou apaixonado por violão. Posso abandonar qualquer coisa na minha vida - até a lutheria -, mas tocar ainda é uma das coisas que mais me dá prazer.

Vou tentar ser breve sobre isso. Meu lado violonista sempre foi muito conturbado. Teve época em que estudei muito, mas sempre apareceram coisas que me distanciaram. Hoje, pensando bem, acho que consegui estudar pra valer só durante uns quatro anos. Mas foram muito bem aproveitados.

Mesmo na faculdade tive muita dificuldade de me adequar a rotina de estudos, aliás, parece que na faculdade a coisa mais difícil é estudar violão. Hoje tenho pouco tempo pra tocar, mas quando posso tocar é um prazer incrível, mesmo com a mão surrada, dura, enfim.

Bom, pra mim, o violão é um instrumento essencialmente poético. As possibilidades de timbres, nuances, enfim, coisas que na verdade todo instrumento tem, mas sinto que o violão bem tocado é um instrumento muito marcante, mágico mesmo, e o mais incrível é que é um instrumento que sempre consegue surpreender, e sempre aparece alguém com uma mágica nova, enfim, sou apaixonado, é difícil falar.

Acho que é isso, é um instrumento muito grudado na pessoa, talvez seja isso.

AH: Se vê que você é um apaixonado pelo instrumento, Sérgio. Além disso, você fez recitais, gravou? Você comentou de ter estudado numa universidade...

SB: No começo toquei algumas vezes no conservatório de Guarulhos. Tocar em público mesmo me lembro disso e de ter tocado no MAC da USP. Fiz umas quatro gravações pra colocar no meu blog e foi só. Na verdade, estou tentando voltar a estudar pra gravar algumas coisas, mas meu lance com o violão sempre foi muito egoísta. Gosto mesmo de tocar fechado no meu quarto. É legal também tocar pras pessoas ouvirem, mas é um pouco estranho. Acho que teria que conseguir voltar a estudar e chegar em um ponto um pouco mais razoável pra me sentir à vontade até pra tocar pra algum amigo ouvir. Sei lá, sou meio neurótico.

Uma coisa que inevitavelmente acontece é eu tocar quando algum cliente vem conhecer meu trabalho. É um momento interessante, porque estou conhecendo uma pessoa nova, e tocar é uma forma de a pessoa me conhecer um pouco melhor, mas ainda assim me sinto cobrado por não estar tocando bem.

AH: Você estudou em que universidade?

SB: Na USP, fiz o curso de bacharelado com o Edelton. Eu parei a faculdade no último ano por causa do trânsito de São Paulo, acredite. Tiveram outras coisas também, mas o trânsito estava literalmente me matando, pânico e tal...

AH: Você fez aulas ou trabalhou no ateliê de algum luthier?

SB: Eu trabalhei quase um ano com o Samuel Carvalho. Foi muito legal, a gente trocava muitas idéias, pareciam dois loucos, era violão o dia inteiro. E, além de construir, tinham os momentos de lazer também, a gente tocava bastante violão. Sempre avaliando como estavam os violões, o que era possível melhorar, enfim era bastante legal. Aulas propriamente não cheguei a fazer.


AH: Qual sua opinião sobre a formação do luthier no Brasil?


SB: Acho que temos um potencial gigantesco aqui. É claro que na formação a gente esbarra em muita dificuldade por não haver muitos lugares de estudo, e tal. Mas vamos nos virando, acho que a gente já chegou lá. Eu não trocaria um violão de alguns de nossos luthieres por nenhum outro de luthier europeu ou seja lá de onde for. Acho que existe uma questão de refinamento estético onde ainda deixamos um pouco a desejar, mas é uma opinião minha que com certeza tem gente que discorda. Luthieres com Abreu, Arone, Tessarin têm esse refinamento, e tem outros também com certeza.

AH: Voltando à questão da formação, você acha que faltam lugares de estudo ou faltam alunos? Há pessoas interessadas em estudar luteria ou qualquer formação acadêmica é malvista?

SB: Na verdade sei que existem lugares que dão apoio ao luthier que está começando . Não sei se são muitos, mas existem. Acho que faltam lugares de excelência. A maioria dos luthieres que conheço se viraram sozinhos em muitas questões, e talvez o caminho seja por aí mesmo, enfim... As escolas de lutheria devem ajudar bastante, mas acho que uma coisa muito legal seria caras como o Tessarin e o Abreu, por exemplo, dando oficinas, enfim, gente que poderia acrescentar muito. E outra coisa que acho que seria um estímulo legal seria termos concursos de lutheria. É uma idéia estranha em princípio, mas acho que criaria um movimento e um estímulo forte entre os luthieres.

AH: Ainda sobre essa questão da formação, noto que vários dos países que possuem luthiers reconhecidos mundialmente tem ao menos uma escola técnica de luteria. Você acha que, com um curso de excelência, o cenário brasileiro da luteria melhoraria?


SB: Putz, é isso. É o tipo de coisa que serviria de incentivo, e que só traria melhoras porque todo mundo trabalharia pensando em superação. Talvez as coisas saíssem um pouco do lugar, além da possibilidade de nomes mais jovens ganharem muita experiência. É isso que você acha também, cara?

AH: Acho que no Brasil falta muita informação, e estamos um pouco isolados. Qualquer coisa que colabore para minorar esse problema é bem-vinda.

SB: Claro.

AH: Mas temo que faltem interessados. Auto-estima é ótimo, mas em excesso é um pecado.

SB: Ah, mas quando a coisa é bem feita traz bons frutos. Um exemplo voltando a idéia do concurso: o pessoal do violão.org, eles fazem os test-drive de violões. É uma idéia parecida, porque é uma exposição. Talvez vá gente querendo ver qual é o melhor, mas é uma exposição em sí, só que se tivesse um concurso, seria uma disputa.

AH: Ia te perguntar exatamente sobre o concurso de luteria que você comentou antes. Como você acha que isso funcionaria?

SB: Acho que seria, em princípio, uma grande exposição. Teria alguém tocando em todos os violões... Seria um evento voltado pra uma plateia de violonistas, certo? Então, poderia ser parecido com um concurso mesmo de violão, com premios de juri e de público. A plateia assistiria a um pequeno recital com os violões e tiraria suas conclusões, o juri idem. Os violões ficariam expostos em uma galeria... Enfim, teria confusão com os resultados como sempre tem em concursos, mas sairia todo mundo ganhando em conhecer de perto uma porção de violões, e o que me chama mais atenção nessa idéia é a questão da superação dos luthieres, tenho certeza que renderia muitos bons frutos, porque seria um desafio para todos.


AH: Você já comentou brevemente do cenário violonístico no Brasil. Você falou que há um déficit no acabamento...

SB: Acho que o problema não é no acabamento, tem luthier que faz acabamentos excelentes. A questão é mais estética, desenho da paleta, filetes, cavalete, o próprio desenho do violão. É mais questão de refinamento mesmo, refinamento estético.
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AH: Virou chavão quando se fala de luteria no Brasil o "não troco um violão brasileiro por um estrangeiro". Mas porque você acha que os estrangeiros não falam "vou trocar meu violão por um feito no Brasil"?

SB: Talvez a questão seja que no fundo, já se chegou aonde tinha que chegar. Quem sabe construir um excelente violão vai fazer isso em qualquer parte do mundo. Uma coisa que pode influenciar nisso é a tradição, mas é difícil saber. De qualquer forma, acredito que essa coisa do refinamento estético conta muito, e é uma coisa que os luthieres estrangeiros renomados têm, aqui também tem quem tenha, então fica elas por elas - ou quase (risos).

AH: Gostaria que você falasse um pouco do seu trabalho, Sérgio. Como você descreveria o violão que você faz?

SB: Nossa, cara, isso é dificil. Bom, vamos lá, acho difícil isso de descrever violão. Não acredito na idéia de descrever timbre com esses verbetes que usamos: doce, claro, escuro, salgado, aguado, gelado... Então vou falar do que posso falar.

Sempre ouvi muito Segovia e Bream, então o som que tenho na cabeça gira em torno do som desses caras. Isso, mesmo saindo de violões diferentes, se resume a um som muito equilibrado em toda a tessitura, com variação de timbre e dinâmica, é uma das coisas que sempre persigo. Pra mim, o violão tem que "cantar" com todas as possibilidades que envolvem o canto. Se a gente pensar que a voz é um instrumento muito versátil, o violão também tem que ser. Honestamente, não acredito que exista um violão perfeito, sempre pode haver alguma coisa a ser melhorada, mas o que busco é como fazer o melhor casamento entre o violão e a pessoa. Isso é muito complicado porque se parece muito com um relacionamento mesmo. A gente tem que procurar entender muito bem o que tem em mãos, porque nem sempre o violão dá tudo o que imaginamos, e às vezes falhamos também. Então é uma questão de doação e de boa convivência.

AH: Você recentemente se mudou de São Paulo pra uma cidade pequena em Minas. Por que a mudança?

SB: Basicamente porque não conseguia mais me deslocar em SP. Tudo é muito travado, não tinha vontade de sair de casa pra não pegar trânsito e tal. E aqui é o contrário, tudo me chama pra fora de casa. Tem montanhas, cachoeiras, excelentes passeios, uma comida maravilhosa, pessoas mais parecidas comigo, mais simples, as pessoas se cumprimentam na rua, visitam umas as outras, é muito bom. Em SP me sentia muito preso, mas talvez o problema estivesse comigo.

AH: Que tipo de violonista tem mais chances de adorar o violão que você faz e que tipo de violonista pode não gostar do seu trabalho?

SB: Não sei ao certo, é uma pergunta difícil, deixa eu pensar. Acho que vai gostar do meu trabalho quem tem um gosto parecido com o meu. Pra mim o violão tem que ser muito bem equilibrado em todas as regiões, não me importo que tenha menos volume que violão moderno, contanto que ouça claramente minhas idéias e que o som tenha qualidades suficientes pra se projetar sem perder nitidez. O violão tem que responder muito bem à dinâmica, tem que me permitir descobrir possibilidades novas de timbre, tem que impôr desafios também, mas principalmente volto à idéia do cantar. A coisa que mais persigo quando toco é um tipo de articulação o mais legato possível. Gosto de ouvir melodias fluentes, sempre tenho a impressão de que determinada nota pode durar um pouquinho mais e se fundir com um acorde seguinte com um enlace muito natural, enfim, tenho uns vícios de articulação meio pessoais, e acho que a pessoa que pensa parecido tende a gostar muito.

AH: Tem algum assunto que você gostaria que fosse abordado mas que não comentei?


SB: Acho que não, Álvaro. Pra dizer a verdade estou um pouco atordoado (risos). Mas tô achando muito legal


Equipamento
Equipamentos principais na oficina:
Equipamentos de proteção, mas falo principalmente de equipamentos que a gente mesmo faz pra se proteger das serras, lixadeiras, e do formão, cara, não há nada mais perigoso que um formão bem afiado.
De ferramentas, as mesmas que todos usam, desengrossadeira, lixadeiras, tupia, raspilhos, serra de fita, e adoro meus formões e grosas, adoro fazer os cabos destas ferramentas.

Madeiras em estoque:
Tenho 30 tampos de abeto engelmann que gostaria de deixá-los do lado da minha cama, estou juntando eles há mais ou menos cinco anos. Tenho sempre as mesmas madeiras de todos luthieres, jacarandá indiano, mogno, ébano, e tem as madeiras alternativas, digamos assim, que adoro, principalmente o louro-preto e o jacarandá africano.

Cuidados na estocagem das madeiras:
Depende da madeira. Os tampos às vezes ficam pendurados na minha oficina, num lugar com luminosidade razoável, pra pegarem uma corzinha, o restante sempre na estufa.

Cuidados na fabricação dos violões:
Todos possíveis. Pra mim é como se fossem de cristal ou um filho.

Um segredinho profissional:
Eu costumo fazer o mapa astral dos violões, é sério. Isso não é um segredo propriamente, mas gosto disso, parece que o violão se torna mais vivo quando colo a etiqueta com a data de nascimento e faço o mapa astral (risos).

Opinião
Por quê ser luthier?
Foi a forma que encontrei de dar vida a alguma coisa, mesmo que tenha que matá-la antes. Não fosse esse lado cruel, seria quase divino.

Uma realização profissional:
Voltar a tocar violão e conseguir gravar algumas coisas. Também tenho um sonho de montar um estúdio/pousada para violonistas aqui em Ouro Preto.

Um marco no violão brasileiro:
Villa-Lobos.

Quais violonistas vivos você gosta de ouvir?
Bream, Willians, Abreu, Assad, gosto muito de ouvir meu amigo Gustavo Costa, gosto de me ouvir também, não na mesma proporção.

Melhor escola para dominar a luteria:
Bom ouvido, muita intuição, um pouco de tecnologia também, tocar violão, contato com bons violonistas.

Um conselho a um jovem profissional:
Acho que bate com o que acabei de falar, buscar desenvolver um bom ouvido, a intuição, buscar alguns recursos tecnológicos, tocar violão, ter contato com bons violonistas, mas eu nem fiz 30 anos, também sou jóvem. Acho que o principal é descobrir qual sua sonoridade, e perseguir isso, com o máximo de critério. As coisas em lutheria se aprendem lentamente, não se muda nada radicalmente na construção.

Como seria o violão dos seus sonhos?
Eu acredito já ter o violão dos meus sonhos que é o número 34 que citei. Como disse, sempre é possível melhorar alguma coisa, mas o ideal é que seja um violão que esteja sempre melhorando, tem que ter uma simbiose e o violão tem que durar muitos anos, crescendo junto com a gente.

O quê um compositor deveria escrever para engrandecer o repertório do violão?
Quando eu ouço Rodrigo eu tenho a impressão de que não dá pra engrandecer mais que aquilo, idem Villa Lobos.

O que você gostaria de dizer para os compradores de violão mas nunca pôde?
Honestamente, sempre digo tudo que tenho que dizer. O que eu gostaria de gritar é pelo amor de deus, façam alguma coisa pras unhas não marcarem o tampo, porque é possível sim.

Papo de Manicure
Você lixaria e poliria as unhas de quem?
Da minha esposa

Qual a maior vantagem de ser luthier ao invés de violonista?
Não ter que tocar bem, posso sempre dar uma desculpa, mas isso é ruim.

Qual a maior vantagem de ser violonista ao invés de luthier?
Não perder uma unha no trabalho

Pra quem você daria um violão seu?
Pra mim mesmo

Um recado para os visitantes do www.violaomandriao.mus.br:
Felizmente a internet proporciona um estreitamento de idéias e espaço, hoje a gente consegue ter acesso a material de muita qualidade devido a esse tipo de coisa. Espero que todos usufruam disso que é poder conhecer gente que às vezes a gente nunca viu, e poder saber o que elas pensam. Boa sorte a todos nós, e violão é tudo.

É isso ai, Sérgio, obrigado pela entrevista.

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Última atualização em Sáb, 19 de Setembro de 2009 19:09  

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