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Entrevista com Luis Carlos Justi e Aloysio Fagerlande, do Quinteto Villa-Lobos

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O Quinteto Villa-Lobos é considerado (há algum tempo) um dos mais importantes grupos de câmara do Brasil, tendo realizado em seus mais trinta anos de história concertos em diversos países. O último CD lançado pelo grupo, "Heitor Villa-Lobos, um clássico popular", tem cerca de um terço do disco com arranjos de composições originais para violão. Para saber mais do grupo e da escolha desse repertório, entrevistamos Aloysio Fagerlande e Luís Carlos Justi.
Quinteto Villa-Lobos
Alvaro Henrique: Gostaria de começar perguntando da trajetória do Quinteto Villa-Lobos. Quando o grupo começou a funcionar, e quais músicos fizeram parte dessa primeira formação? Como foi o processo para chegar na formação atual? Há quanto tempo vocês estão juntos?


Luís Carlos Justi: Não conheço tão profundamente toda a trajetória do QVL como o Paulo Sérgio, por exemplo, afinal ele está no QVL há mais de trinta anos e eu “somente” há 24 anos. No entanto sei que ele foi fundado por um grupo de jovens músicos da UFRJ nos idos de 1962  que tinha por objetivo, sobretudo por influência do fagotista Ayrton Barbosa (precocemente falecido) enfatizar a execução e a composição de música brasileira de concerto para quinteto de sopros. O primeiro concerto do QVL, segundo um programa em nosso poder e depoimentos de pessoas como Valdinha Barbosa, viúva do Ayrton, contou com a participação de Celso Woltzenlogel, flautista, José Carlos de Castro, clarineta, Ayrton Barbosa, fagote , Paolo Nardi, oboé e Carlos Gomes de Oliveira, trompa.

Resumindo, com o passar dos anos, com a morte do Ayrton, a saída de alguns outros por razões várias, os músicos foram sendo substituídos por outros que, por reconhecerem como legítimas as orientações artísticas que o grupo original defendia, continuaram a levar adiante aquelas bandeiras. Estas bandeiras, pode-se resumi-las em:

- não estabelecer diferenças entre música popular de boa qualidade e música de concerto de boa qualidade (assumindo que existe boa música nos dois gêneros);

- não se limitar à apresentações em locais próprios para isso, como teatros e salas de concerto, mas ampliar o campo de atuação para outros locais onde o público está (preenchidas as condições técnicas mínimas para isso) como escolas, hospitais, lonas culturais, circos, etc;

- incentivar a criação musical por parte dos compositores brasileiros, os já consagrados e os jovens, para a formação de quinteto de sopros (flauta, oboé, clarineta, trompa e fagote);

Outras foram acrescentadas pelo grupo atual:

- executar sempre que possível os jovens compositores que raramente têm a chance de verem suas obras apresentadas;

- atuar, sempre que possível, não somente apresentando as composições, mas também exercendo atividades didáticas em festivais dos quais participamos, ou em locais onde haja um movimento musical e o interesse dos músicos locais.

A formação atual (Toninho Carrasqueira, Luis Carlos Justi, Paulo Sergio Santos, Philip Doyle e Aloysio Fagerlande) já tem 13 anos de idade. Iniciou-se duas semanas antes da gravação de um CD do QVL onde se tocou o Quinteto em forma de Choros, obra digamos, que embalou o nascimento do grupo atual.  

AH: Nesse período, houve uma reorientação da proposta artística do grupo ou ela seguiu uma linha constante?

LCJ: A proposta original segue sendo mantida pelo grupo. O que acontece é que, dependendo dos projetos que vemos aprovado num ano determinado, a atuação segue por um caminho ou por outro, ou por vários simultaneamente. Como o QVL nunca contou com nenhum patrocínio fixo, mas sobrevive dos projetos que consegue vender, isso determina, em parte, a atuação durante aquele período.

AH: O Quinteto Villa-Lobos recebe o apoio oficial de alguma instituição para funcionar?

LCJ: Como dito, o QVL recebe eventualmente apoios de órgãos oficiais ou privados, a partir de projetos que ele mesmo desenvolve, apresenta e que são aprovados. De resto, nunca teve um apoio constante que permitisse seu trabalho independente dos projetos.

AH: Nesse período de atuação, que impacto vocês acham que o Quinteto Villa-Lobos criou na música de câmara brasileira? Surgiram muitas composições escritas para vocês? Ele serviu de referência para outros quintetos de sopros?

LCJ: Penso, imodestamente em nome do grupo, que a atuação do QVL foi durante estes 47 anos de vida, muito importante para a criação musical no país, no que se refere à música e concerto; e também no que se refere à qualidade da perfomance instrumental dos sopros. Durante muitos anos tínhamos excelentes grupos de cordas, quartetos, trios com piano, etc, na música clássica e ótimos grupos, também com sopros, na música popular. O amadurecimento dos músicos dentro da formação do QVL, imprimiu uma qualidade técnico-artística de performance para os sopros que estabeleceu um paradigma de qualidade. O trabalho de registro da música brasileira de concerto é outra obra que merece ser citada: gravamos toda a obra para sopros de Villa-Lobos em CD duplo, temos um CD com parte da história da composição para quinteto de sopros no Brasil que vai de 1926 até 1974, (projeto que pretendemos levar adiante, chegando até nossos dias), editamos grande parte de obras cujas partituras não existiam ou existiam em material muito ruim (que se encontram hoje com os donos de direitos autorais), incentivamos o trabalho de arranjos de obras não originais por entendermos como de suma importância o trabalho de um arranjador, e por aí vai. Não do nada existem tantas composições e arranjos de autores famosos (eruditos e populares) dedicados ao QVL.

Quinteto Villa-LobosAH: Vocês estão lançando o CD Villa Lobos, um Clássico Popular. Qual foi a ideia inicial desse disco?

LCJ: Em arranjos primorosos vínhamos tocando sempre obras não originais de Villa-Lobos para quinteto de sopros, como a Ária das Bachianas Brasileiras n° 5 (originalmente escrita para soprano e grupo de violoncelos), ou de Nazareth, ou Pixinguinha. Invariavelmente, depois das apresentações, parte do público nos pedia gravações daquelas obras. Resolvemos então fazer o CD, aproveitando a lembrança dos 50 anos sem Villa-Lobos, apresentando o mais popular do compositor, aquelas obras, ou parte delas, que as pessoas adoram ouvir e que queriam ter compiladas e acessíveis no mesmo CD.

AH: Vocês podem falar brevemente da turnê de lançamento desse último CD, citando futuras performances?

LCJ: Estamos caminhando já para o final da turnê nacional de lançamento deste CD. Viajamos por algumas cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, vamos ainda à Campinas, Pederneiras, Salvador, para lançar o CD e tornar Villa-Lobos ainda mais conhecido em seu aspecto popular. Isto sem falar em outros concertos não diretamente ligados a turne de lancamento, como Brasilia (Clube do Choro), Recife (70 anos do Conservatorio Pernambucano de Musica),  a recente turne por 5 paises africanos e a gravacao de um programa na Radio France dedicado a Villa-Lobos, em Paris, em dezembro.

AH: Creio que seja de interesse especial dos visitantes do www.violaomandriao.mus.br saber que cerca de um terço do CD é de transcrições de obras originais para violão para o quinteto Villa-Lobos. Como foi o processo de escolha do repertório e por que escolher essas peças? A Suite Popular Brasileira é uma grande surpresa, pois entre os violonistas ela é o "patinho feio" da obra pra violão de Villa-Lobos.

LCJ: Algumas obras são mais adaptáveis, digamos, a arranjos para outras formações, outras menos. Como trabalhamos sempre com arranjadores excelentes, eles sempre conseguem uma maneira de resolver estes aspectos que leva a um resultado de valorização da música original e põem em relevância aspectos que, às vezes não são tão claros no original. Talvez tenha acontecido isso com a Suíte Popular Brasileira. Obra da juventude do compositor, ela ganhou, nos arranjos do músico, não por acaso o violonista Marcilio Lopes, uma transparência que a mostra como um belo cisne em vez de um “patinho feio”. Mesmo caso do Choros 1, em arranjo do Caio Marcio, outro violonista.

AH: O Quinteto Villa-Lobos trabalhou com outros violonistas ou obras originais para violão no passado? Há algum violonista ou composições para violão que despertam o interesse do grupo?

LCJ: Trabalhamos com muitos violonistas não somente em arranjos, mas em obras originais de musica de câmara que incluíam o instrumento, de Turíbio Santos aos citados Caio Marcio, Marcilio Lopes e outros. Acho que falo em nome do grupo quando digo que todos encontramos uma alma gêmea no grande compositor e violonista Guinga. Ainda vamos voltar a trabalhar e gravar juntos.

AH: Vocês poderiam falar dos CDs anteriores do quinteto?

LCJ: Gravamos vários CDs, sempre de música brasileira, obviamente,

AH: O quinteto é formado por músicos muito competentes e que tem uma carreira ativa solo, em outras formações e/ou lecionando em universidades Como os integrantes conseguem conciliar essas atividades diferentes e ser tão bem sucedidos em todas?

LCJ: As atividades são diferentes, mas não excludentes. Elas se completam e exigem de cada um de nós o desenvolvimento específico em cada área, que torna a performance mais completa e a interpretação mais rica quando se trata da atuação conjunta. É necessário uma organização razoável individualmente, para as atividades didáticas, de solista e de outros grupos, e uma ótima organização do quinteto para ensaios, preparação de repertório, decisão de agenda. Enfim, todas as atividades relativas ao QVL têm sido feitas com uma antecedência cada vez maior. Hoje o que de pior pode acontecer com o QVL são mudanças de datas de apresentações. Significam em geral uma mudança muito grande na agenda individual dos membros do quinteto e um jogo de xadrez para compor uma solução.

AH: Que recado vocês deixam para os visitantes do www.violaomandriao.mus.br?

LCJ: Agirem sem preconceitos em relação à música. Todas as manifestações culturais têm seu valor, às vezes mais restrito, outras mais amplo, e cada música tem seu lugar e aplicação.

EQUIPAMENTO

Instrumentos:
Luis Carlos Justi, oboé: Uso dois instrumentos, Marigaux, francês e Patricola, italiano, dependendo da situação.

Aloysio Fagerlande, fagote: uso o modelo Diamant, da Gebruder Monnig, alemao.

Palhetas:

LCJ: Faço eu mesmo (Justi).
AF: Eu também faço as minhas

Acessórios:

Usamos estojos para os instrumentos do Marcus Bonna. São leves, resistentes, ótimos!


quinteto villa-lobosOPINIÃO

Por quê ser músico?
LCJ: Porque eu posso dizer, tocando, o que não consigo dizer falando!
AF: Porque não ser musico? Tudo é musica!

Uma realização profissional:
todos: Ter gravado o CD duplo A Obra de Câmara de Villa-Lobos.

Um marco na música brasileira: (Não vale Villa-Lobos!)
LCJ: Pelo importancia e seriedade como educador, sobretudo, Ernst Mahle, ex-diretor e fundador da Escola de Música de Piracicaba, onde comecei a estudar.
AF: Para mim, Noel Devos, mesmo sendo frances de nascimento – nunca encontrei alguem que defendesse tanto a musica brasileira quanto Devos.

Melhor escola para dominar a interpretação musical:
LCJ: Não estudar somente música. Ler, ter cultura geral, informar-se, conhecer.

Um conselho a um jovem profissional:
LCJ: Ser honesto consigo mesmo e com a obra musical!

Um recado para o público:
LCJ: Ir ao concerto como se fosse para a cama dormir: esquecer os problemas, fechar os olhos e abrir a mente, deixar a música entrar. Quando “acordar”, estará revigorado!

O que você gostaria de dizer para um patrocinador e um produtor, mas nunca pôde?
LCJ: Dizer propriamente não, mas gostaria que eles soubessem que não estão somente pagando ao artista em vez de à outra pessoa, mas que estão viabilizando o fato de que as pessoas que irão ao concerto voltem para casa melhores do que saíram.

PAPO DE MANICURE

Você lixaria e poliria as unhas de quem?
LCJ: Isso deve ser alguma expressão de violonistas né? Tenho muita admiração por Nelson Freire e pelo Antonio Menezes!
AF: De muita gente, que tenho receio de esquecer...

Qual a maior alegria de tantos anos de Quinteto Villa-Lobos?
LCJ: Para mim foi quando tocamos no meio da floresta amazônica, no SESC em Laranjal do Jarí, um lugar esquecido pelo resto do mundo, veio uma senhora muito simples, que depois soubemos, vivia no meio do mato, e nos disse: “Vocês são anjos que desceram do céu para nos trazer algo tão bonito!” Me emociono até hoje quando me lembro. Foi o maior elogio que alguém pode receber! E sabe o que havíamos tocado? Quinteto em forma de Choros de Villa-Lobos!!
AF: De varios momentos, mas quase sempre da alegria de estarmos no palco, tocando – acho que isto nos mantem unidos este tempo todo.

Qual a maior chateação que vocês viveram nesse período?
LCJ: Para mim era e é ainda, perceber como nossas crianças, normalmente público de concertos didáticos, sobretudo na periferia, não tem contato nenhum com nenhuma música boa, somente com o lixo que os meios de comunicação jogam para dentro das casas de família, que aceitam isso passivamente por não terem educação e cultura suficientes para avaliar o mal que isso representa. A gota d’água foi um dia em que o Paulo Sergio, mostrando a clarineta a algumas classes de escola publica no Rio, tocou “Tico-tico no fubá” e ninguém, nem as professoras, sabia o que era! Aquilo foi muito triste!
AF: Com a verdadeira demolicao cultural que nos e imposta diariamente por uma midia mentirosa e pseudo-dona da verdade!

Algum segredo para manter um grupo unido por tanto tempo?

LCJ: Acho que o segredo é “discutir a relação!” Sem brincadeiras, foi até agora o fato de sabermos todos que o resultado do trabalho em conjunto é mais importante do que cada um de nós individualmente. Enquanto cada um de nós acreditar nisso, estaremos juntos. Quando um começa a se achar mais importante do que o grupo, aí começa o fim! O QVL é uma democracia e como o número é ímpar, nunca dá empate.

Muito obrigado, Luís Carlos e Aloysio!

Contatos: www.quintetovillalobos.com.br

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Última atualização em Dom, 06 de Dezembro de 2009 21:38  

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